Minutos que salvam vidas: rapidez no atendimento é fundamental contra o AVC

 


Quando uma pessoa apresenta sinais como boca torta, perda repentina de força em um dos lados do corpo ou dificuldade para falar, cada minuto faz diferença. No caso do Acidente Vascular Cerebral (AVC), o tempo entre o início dos sintomas e o atendimento pode determinar as chances de sobrevivência e de recuperação sem sequelas.

Para reduzir esse impacto, o Sistema Único de Saúde (SUS) vem fortalecendo uma rede de atendimento voltada ao reconhecimento precoce, transporte, diagnóstico e tratamento rápido dos pacientes. A estratégia inclui a integração entre o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU), Unidades de Pronto Atendimento (UPAs), emergências hospitalares e centros especializados.

Entre as principais ações estão a consolidação das linhas de cuidado para AVC, infarto e trauma, a ampliação de unidades especializadas, o uso da telemedicina e a expansão da habilitação e da acreditação de centros de referência em AVC.

Para o neurologista Jamary Oliveira Filho, chefe da UTI Neurológica do Hospital Mater Dei Salvador e médico e pesquisador do Hospital Universitário Professor Edgard Santos (HUPES-UFBA), o maior desafio é garantir que todos os serviços atuem de forma integrada.

"O AVC não permite que a rede trabalhe em ilhas. O SAMU precisa reconhecer a suspeita, comunicar previamente ao hospital e transportar o paciente para o serviço adequado. A emergência, por sua vez, deve estar preparada para realizar os exames e iniciar o tratamento imediatamente", afirma.

Linha de cuidado organiza o percurso do paciente

Segundo o especialista, a chamada linha de cuidado define previamente o trajeto que o paciente deve percorrer desde a identificação dos sintomas até a reabilitação. O objetivo é evitar que pessoas com suspeita de AVC sejam encaminhadas para unidades sem tomografia, equipe treinada ou acesso aos tratamentos específicos.

"Uma rede bem organizada precisa saber onde estão os serviços que realizam tomografia, trombólise e trombectomia. Não se pode começar a definir essa trajetória somente depois que o paciente já chegou à emergência", explica Jamary.

Telemedicina reduz desigualdades regionais

A telemedicina também é apontada como ferramenta importante para ampliar o acesso ao atendimento especializado, principalmente em municípios do interior. Por meio dela, equipes locais podem compartilhar exames e discutir casos em tempo real com neurologistas de centros de referência, acelerando decisões sobre o tratamento e eventuais transferências.

"A telemedicina amplia o alcance da neurologia vascular e dá mais segurança às equipes. Em localidades distantes dos grandes centros, pode representar a diferença entre tratar o paciente dentro da janela adequada ou perder essa oportunidade", destaca.

Desafios persistem no acesso ao tratamento

Apesar dos avanços na organização da rede, o atendimento ainda enfrenta desigualdades regionais. Em áreas remotas, a distância entre os municípios, as dificuldades de transporte e a falta de tomografia ou de equipes capacitadas podem atrasar o início do tratamento.

Outro desafio é ampliar a oferta da trombectomia mecânica 24 horas por dia, sete dias por semana. O procedimento, realizado por meio de um cateter para retirar o coágulo que obstrui uma grande artéria cerebral, exige estrutura hospitalar de alta complexidade e profissionais especializados.

De acordo com Jamary Oliveira Filho, parte dessa estrutura já faz parte da rotina de hospitais privados de referência, como o Hospital Mater Dei Salvador.

"Em centros privados de ponta, já trabalhamos com protocolos integrados, acionamento rápido das equipes, neuroimagem avançada e terapia intensiva especializada. O desafio é fazer com que esse padrão seja acessível e reproduzível em diferentes regiões da rede pública", observa.
Acreditação e reabilitação completam o cuidado

Além da expansão dos centros especializados, a acreditação hospitalar é considerada estratégica para garantir qualidade no atendimento. O processo avalia se as unidades possuem infraestrutura, equipes, protocolos e indicadores compatíveis com as boas práticas no tratamento do AVC.

O neurologista ressalta que o cuidado não termina após a alta hospitalar. Muitos pacientes necessitam de fisioterapia, fonoaudiologia, terapia ocupacional, acompanhamento médico e apoio psicológico para recuperar movimentos, fala, deglutição e autonomia.

"Salvar a vida é o primeiro objetivo, mas não pode ser o último. A assistência ao AVC só é completa quando inclui prevenção de novos eventos, reabilitação e apoio ao paciente e à família", conclui.

Saiba reconhecer os sinais do AVC

Especialistas recomendam que a população memorize o mnemônico "Vá de SAMU", criado para facilitar o reconhecimento dos sintomas:

V – Visão: alteração súbita da visão;


D – Desequilíbrio: dificuldade repentina para caminhar ou manter o equilíbrio;


S – Sorriso: boca torta ao sorrir;


A – Abraço: fraqueza em um dos braços ao tentar levantar os dois;


M – Música: dificuldade para repetir uma frase simples;


U – Urgente: diante de qualquer um desses sinais, ligue imediatamente para o SAMU, pelo telefone 192.

Quanto mais rápido o paciente chegar a uma unidade preparada para atender casos de AVC, maiores são as chances de receber o tratamento adequado e menores os riscos de morte e de sequelas permanentes.

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